Cidades em movimento
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José Valverde 27/01/2010 |
A população urbana já supera a rural em níveis mundiais desde 2007 e estima-se que, em 2030, dois terços da população global viverão em centros urbanos, conforme levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU). No Brasil, em 2000, a população urbana ultrapassou 2/3 da população total, e atingiu a marca de 138 milhões de pessoas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
As cidades brasileiras foram se constituindo rapidamente sob a integral ausência de planejamento urbano. A opção pelas cidades considerou essencialmente as necessidades humanas prementes de acomodação e bem-estar. O desequilíbrio desse processo afetou diretamente o meio ambiente natural. Foram alteradas as características geográficas de regiões, com a supressão da vegetação e impermeabilização do solo, a ausência de saneamento levou ao despejo inadequado de resíduos e efluentes nos rios e represas, afetando o abastecimento de água e a fauna aquática, a qualidade do ar ficou prejudicada por conta da emissão de gases de efeito estufa e de particulados oriundos da queima de combustíveis fósseis, que aumentam os problemas respiratórios, levando à morte milhares de pessoas todos os anos.
Estudo - O quadro urbano desafia a construção de modelos eficientes, que suportem o crescimento das metrópoles, com destaque para o abastecimento de água de boa qualidade para o consumo humano, bem como para a gestão integrada dos resíduos sólidos gerados aos milhares de toneladas diariamente nas cidades.
A Agência Nacional de Águas (ANA) apresentou estudo dentro de um planejamento que se estende até 2025 sobre a demanda e a oferta de água nos maiores centros urbanos brasileiros. O trabalho indica, por exemplo, que a macrometrópole paulista, que reúne 180 municípios habitados por cerca de 30 milhões de pessoas, dispõe de redes de produção, infra-estrutura, serviços e
transportes complexos. A área conta com alto nível de interdependência e o encaminhamento dos problemas urbanos e ambientais exige estratégias e soluções integradas e diferenciadas, requerendo um rol de políticas e arranjos institucionais não menos sofisticados.
No caso específico do abastecimento urbano, as projeções indicam que as demandas devem aumentar até 2025, motivando já nos dias de hoje notável esforço dos órgãos públicos, comitês e agências de bacia, concessionárias de serviços públicos e municípios, entre outros, para uma ação coordenada de planejamento e gestão dos recursos hídricos em nível regional. Ressalta o estudo o fato de a maioria das regiões metropolitanas dependerem – em certa medida – das mesmas fontes hídricas, cujo contexto tem sido motivo de conflitos e disputas.
Colapso - Na outra ponta, o lixo tem colocado os grandes centros à beira de um colapso. Pontualmente, neste início de ano, temos presenciado o grande volume de lixo urbano descartado de maneira inadequada contribuir diretamente para os alagamentos provocados pelas intensas pancadas de chuvas, causando tragédias pessoais e prejuízos materiais incalculáveis.
A ausência de uma legislação nacional de resíduos representa o principal obstáculo para o enfrentamento eficaz e a implementação de um conjunto de iniciativas e o encadeamento de responsabilidades para transformar essa realidade negativa, que compromete gravemente a qualidade de vida nos ambientes urbanos, em ações que estimulem fundamentalmente a não-geração, redução, reutilização, reciclagem, e a queima com aproveitamento energético – considerando o controle das emissões.
O Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil – 2008, organizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), demonstra o preocupante mapa da destinação final adequada dos resíduos urbanos, visto que, em 2008, cerca dos 55% dos resíduos domiciliares coletados nas cidades brasileiras foram destinados corretamente a aterros sanitários. O lamentável, é que os demais 45% dos resíduos urbanos foram enviados a lixões e a aterros controlados, formas ambientalmente inadequadas de descartes.
Procura - A tendência é a de que a busca das pessoas pelos centros urbanos aumente ainda mais nos próximos anos em todo o mundo, pois é da essência humana buscar regiões em que se concentram as maiores atividades econômicas, onde a produtividade e a renda do trabalho sejam elevadas e a oferta de infra-estrutura (transporte, saneamento, segurança pública, redes públicas de saúde e educação, energia etc.) seja acessível e permita o máximo de satisfação pessoal e a garantia de sadia qualidade de vida.
Será desafiador, sobretudo, em relação à questão ambiental, para todos os entes governamentais, institucionais, empresariais e toda sociedade definir as regras que regerão a vida nos próximos anos em grandes centros urbanos. Assim, os recursos hídricos e resíduos sólidos, além de muitos outros temas intrínsecos à realidade das cidades, exigirão soluções que caminhem na direção da valorização do planejamento urbano, considerando integralmente a questão ambiental, juntamente com a implementação de políticas públicas que privilegiem a utilização de ferramentas tecnológicas que contribuam e garantam o pleno funcionamento das cidades e de suas superpopulações.